Especialistas em compliance analisam o papel do setor público, do setor privado e da sociedade na construção de uma cultura de integridade

Por Roberta Codignoto e Renato Cirne*

Ano desafiador, não é mesmo?  Parece que tudo o que sequer imaginávamos que poderia acontecer no mundo durante nossa vida inteira aconteceu neste 2020. E, para enfrentar os desafios da pandemia, lembramos de Peter Drucker, ao afirmar que “você não pode prever o futuro, mas pode criá-lo”. Nesse sentido, todos os dias precisamos nos concentrar não no que não podemos fazer, mas sim em definir nossos objetivos e determinar os recursos necessários para atingirmos esse fim.

Nesse ano chegamos até a recear que a pandemia pudesse ter trazido a “flexibilização” do compliance, mas vimos que tudo o que estava acontecendo acabou trazendo mais argumentos de sensibilização para todos que trabalham em uma empresa ou instituições públicas. E para a construção de um futuro cada vez mais seguro e íntegro.

Como os temas relacionados à crise de Covid afetam diretamente a vida das pessoas, a sociedade civil pode este ano fazer uma conexão mais clara com os desvios, com a corrupção, e o que antes ainda acabava parecendo que era uma realidade distante. Assim, cada dia mais, pessoas começaram compreender a razão por trás de todos os mecanismos de controle e a relevância dos programas de integridade.

Mas o que é, então, integridade? E qual seria a conexão com a integridade pública?

Não há integridade sem inteireza. Portanto, como pode haver integridade pública, ou seja, no setor público, sem que haja integridade no privado e na sociedade?  A ação precisa ir além do governo, envolver indivíduos e o setor privado.

Portanto, para construção de uma cultura de integridade, temos três atores: setor privado, setor público e a sociedade.

Todas as iniciativas no setor privado, que há anos vem desenvolvendo seus programas de integridade, educando seus colaboradores e líderes para as boas práticas de negócios, devem continuar e amadurecer cada vez mais.

A pandemia trouxe desafios para estes programas, fazendo a sociedade olhar para as empresas que estavam, de fato, comprometidas com integridade.

Com relação ao setor público, é preciso que se ampliem os programas de integridade em todas as esferas do setor público, ainda mais em um cenário de crescente exigência de programas de compliance para o setor privado.

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Certo é que existem desafios para que esta realidade alcance todas as esferas de poder, como a desconfiança em razão da alta percepção de corrupção.  É preciso acabar com conceitos enraizados que possuímos de que funcionário público é corrupto e que empresário é oportunista.  Esse generalismo não nos leva a lugar nenhum e nunca é demais reforçar que a corrupção precisa de dois sujeitos para acontecer:  alguém do público e alguém do privado.

E o terceiro ator da integridade pública é a sociedade, o cidadão, que precisa exercitar o controle social, praticar a integridade diariamente, afinal, ela começa por nós. Somos nós mesmos, com nossas condutas diárias, que escrevemos nossas ações, e com uma tinta que não dá para apagar.

Trabalhar no fortalecimento da integridade pública, em seu sentido mais amplo como mencionamos, pode ser uma ferramenta muito importante para garantir a transparência tão clamada pela sociedade.

E, somente quando tivermos estes três atores atuando de forma harmônica, estaremos num ambiente em que a integridade pública prevaleça.

* Roberta Codignoto é Conselheira da Comissão de Ética da Presidência da República e sócia da Pró-integridade; Renato Cirne é sócio fundador da GB3S Consultoria e da Renato Cirne Advogados

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